Militante feminista, coordenadora do Centro de Direitos Humanos Padre Josimo, mãe e assistente social.
Origens da militância
No início da década de 80, um grupo de professores da rede municipal de Imperatriz, mobilizados pelas mulheres do Partido dos Trabalhadores, estava em greve pedindo o pagamento dos salários atrasados e o reajuste salarial. O político José Sarney visitava a cidade para uma inauguração e se reunia com os manifestantes. Em meio à redemocratização, Sarney era um dos homens mais poderosos do país e sua família dominava o estado. Em cima do palanque, ele segurava o microfone, e um grupo de professores esperava, esperava e esperava a vez de falar.
Até que uma jovem estudante toma o microfone da sua mão. “Eu lembro que eu subi no palco e tomei o microfone da mão de Sarney, que não deixava a gente falar”, relata Conceição de Maria Amorim, 62 anos, militante feminista, mãe e assistente social. Nascida no Rio Grande do Norte, de uma família que migrou para Imperatriz em busca de maiores oportunidades em 1977, ela cresceu dentro da Igreja Católica e muito cedo começou a questionar a injustiça da vida: “Por que tantas pessoas viviam em situação de miséria, se Deus era pai de todas?”. Esse incômodo inicial foi dando forma a um pensamento de justiça social, orientado pelo estudo do marxismo e pelas lutas populares na América Latina, e essas referências orientariam escolhas, militância e atuação pública.
“Eu acho que Conceição nessa hora estava indignada, certamente, porque Conceição era uma figura revoltada, mais revoltada com o Sarney, a família Sarney, porque naquela época o Sarney era uma das figuras mais importantes do Maranhão, era ele quem dominava a política”, conta o trabalhador rural e ex-deputado estadual do Maranhão (1990 a 1998), Luís Soares Filho (Vila Nova). Como um dos membros fundadores do PT no estado, ele acompanhou a juventude de Conceição, que sempre foi marcada pela presença no debate nas bases e na luta pelo direito dos trabalhadores.
A greve não terminou impune. Conceição conta que houve uma onda de demissões de professores em Imperatriz após a manifestação e ela estaria entre as demitidas.
Após realizar outro protesto dentro da sua escola contra uma mudança de uniforme, ela foi presa dentro de casa e levada para uma área de segurança nacional na cidade. “Na hora da prisão, eles chegaram, entraram na minha casa e eu estava lendo Os 10 Dias que Abalaram o Mundo", explica. Na época, ela já fazia parte de um grupo trotskista que se chamava Alicerce da Juventude Socialista. Dentro da delegacia da Polícia Civil, ela deu um jeito de se livrar de uma das cartas vindas de companheiros de Belém; uma parte foi picada e levada descarga abaixo e “a outra parte, as primeiras páginas, eu precisei comê-las”.
Repressão e exílio
Expulsa da escola e perseguida, Conceição “fugiu” para São Paulo, onde passou a integrar a classe operária paulista, atuando em empresas metalúrgicas, e teve contato com os movimentos sindical e os movimentos feministas, que viriam a se espalhar por todo o país.
Desde 1994, quando voltou à Imperatriz, a figura de Conceição Amorim não é desconhecida na cidade. Uma das coordenadoras do Fórum de Mulheres de Imperatriz e região Tocantina do Maranhão e do Centro de Direitos Humanos Padre Josimo, ela esteve à frente na luta pelos direitos humanos, contra a violência e pela garantia de direitos às mulheres.
Iza Amorim, psicóloga, militante e filha de Conceição, destaca que mulheres como Conceição Formiga, Conceição Amorim e outras representantes de movimentos sociais são importantes na efetivação de políticas públicas para os segmentos sociais historicamente excluídos da sociedade. Ressaltando, que foi através da luta delas que o Maranhão teve o primeiro Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres (1997).
A história da luta pelos direitos das mulheres em Imperatriz se mistura com a trajetória de Conceição Amorim e do Centro de Proteção à Cidadania e Defesa dos Direitos Humanos Padre Josimo (CPCDDHPJ). O Centro é uma ONG com sede em Imperatriz que tem origem no Movimento Fagulha, criado em maio de 1995 por professores, estudantes, jornalistas e familiares de vítimas de violência, em meio às mobilizações populares contra o abandono das políticas públicas e as denúncias de desvios de recursos no município após o assassinato do prefeito Renato Moreira, em 1993.
Essas lutas culminaram na ocupação da Prefeitura de Imperatriz e da Câmara Municipal e na intervenção estadual em janeiro de 1995. O Movimento Fagulha se juntou ao Comitê Permanente Contra a Violência e a Negligência Médica, do qual Conceição fazia parte, e adotou o nome atual em 2001.
O Centro Padre Josimo
Segundo o blog oficial do CPCDDHPJ, ao longo de seus 30 anos de atuação, sob a liderança de Conceição, o Centro teve protagonismo em importantes conquistas para as mulheres de Imperatriz, como a criação do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (1998), a estruturação e implantação do Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher – PAISM (2000) e a consolidação do convênio com o Ministério da Justiça, que possibilitou a construção da Casa Abrigo para mulheres (2003).
Destacam-se ainda a implantação da Vara Especializada em Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher (2007), a primeira do Maranhão, a inauguração da Casa Abrigo Dra. Ruth Noleto e a criação da Promotoria da Mulher (2008), do Centro de Referência e Atendimento à Mulher e da Defensoria Especializada da Mulher (2010), da Casa da Mulher Maranhense (2020) e do Centro de Responsabilização dos Autores de Violência Contra a Mulher (2021).
Além dessas ações, o Centro também atuou em denúncias de violações de direitos humanos, como a situação de mulheres presas em presídio masculino, que resultou na construção do presídio feminino em Davinópolis, a paralisação da obra do Fórum Justiça Henrique de La Roque, em Imperatriz, os casos de violência e racismo nos supermercados Mateus e, em 2023, as violações de direitos contra mulheres presas no Maranhão, denunciadas a instâncias nacionais de direitos humanos.
A militante Maria de Jesus Bezerra Santos, conhecida como Maria Gavião, conheceu a Conceição como membro da União Nacional dos Estudantes (UNE) em uma incidência contra um caso de estupro à mulher nos anos 2000. Ela descreve a amiga e companheira como uma referência no movimento feminista do Maranhão e do Brasil, “a coisa que mais eu admiro nela, que tem poucas pessoas, é a capacidade dela de generosidade, de ser solidária”. Maria descreve a liderança da amiga como firme, mas sempre de acreditar e defender.
Apesar das décadas na cidade dedicadas à luta pelos direitos humanos e pelas mulheres, Iza Amorim lamenta que sua mãe não seja reconhecida pelos imperatrizenses, embora ela não tenha o objetivo de ganhar apoios e homenagens, mesmo com tantos anos, sacrifícios e uma atuação chave em várias áreas.
“Não existiria casa-abrigo. Não existiria casa da mulher maranhense”, Iza declara, reconhecendo a força da luta dos movimentos liderados pela mãe. A psicóloga acredita que a militância não se faz sozinha, porém, os movimentos precisam de uma força articuladora. “...a realidade é que a cidade precisa de outra Conceição, uma não e sim várias outras”, completa.
A psicóloga afirma sobre a mãe: “Ela pensa muito nos outros. Ela pensa muito nas outras. E aí, às vezes, ela não mede as consequências para ela. No sentido mesmo de segurança, de saúde mental.” Sobre isso, Iza conta uma história marcante da sua infância.
Bastidores da luta
Antes da conquista da casa-abrigo de mulheres em situação de violência, Conceição acolheu duas mulheres que estavam correndo risco de vida em sua casa. “E foi um momento de choque pra mim. Porque, ao mesmo tempo em que essas duas mulheres foram lá pra casa pra serem acolhidas. Eu precisei sair de casa, porque a situação era realmente bem difícil. Era colocar em risco a vida, a segurança, tanto da minha mãe quanto a minha, pra colocá-las em segurança”, relembra Iza Amorim.
Ao longo de décadas de luta, Conceição garante que o maior obstáculo na conquista dos direitos das mulheres é a falta de politização dos gestores, das pessoas que estão nos espaços de poder de decisão do município, seja na câmara, seja na prefeitura. “No geral, são pessoas ainda muito marcadas pelo machismo e pela misoginia mesmo. E poucos conhecedores de políticas públicas, sem a qualificação profissional para atuar na gestão pública”. Ela salienta que as políticas para as mulheres são relativamente novas, destacando a dificuldade em fazer com que se cumpra a lei, que essas políticas sejam feitas com qualidade e evitar o sucateamento.
Conceição coloca como marco do crescimento intelectual de Imperatriz a chegada das universidades públicas nas décadas de 80/90 e depois as privadas, que ajudaram a democratizar o acesso à educação, e destaca que ainda existem muitas políticas públicas que as pessoas não imaginam que existem em Imperatriz, assim como não valorizam, como a Casa da Gestante, que abriga mães puérperas com bebês prematuros nascidos na maternidade de Imperatriz, muitas vindas de outras cidades.
Entre todas as conquistas, Conceição considera que Imperatriz, a segunda maior cidade do estado do Maranhão, seja uma referência na luta pela garantia do direito das mulheres, a única cidade no Brasil que tem todas as políticas previstas na Lei Maria da Penha: “e eu tenho muita consciência de que parte dessa conquista foi em função do meu empenho pessoal. Isso é uma coisa que eu considero uma conquista muito importante, pessoalmente, profissionalmente”.
A militante ressalta que se sente assustada com uma cultura de ignorar a realidade da cidade quando vai realizar palestras em escolas e “os estudantes não sabem que o prefeito de Imperatriz de 1993 foi assassinado, que o padre Josimo foi assassinado aqui na cidade de Imperatriz”, não conhecem a história da cidade, não sabem de nada. Então, “quando a gente vai estudar um pouco sobre a história de Imperatriz, o que existe dentro dessa cidade é uma coisa fantástica”.
Obstáculos e conquistas
Sobre o futuro dos movimentos sociais, a militante atesta que estamos vivendo um momento em que a tecnologia traz possibilidades infinitas de acesso à informação e conexão entre pessoas, do feminismo e dos movimentos sociais poderem dialogar com mais pessoas e esse processo foi acelerado pela pandemia, porém, o capitalismo conseguiu impor um nível de alienação da sociedade de consumo e profundo individualismo.
“Há 50 anos, quando eu dizia que o mundo não podia ser do jeito que era, era possível encontrar pessoas que confirmavam que podia ser diferente, e eu podia consolidar esse sonho no dia a dia. Hoje, as pessoas são desestimuladas a sonhar”, conta. Ela relata que falta o interesse de aprender, estudar ou se colocar em risco para mudar o mundo para os outros, mesmo que também mude o seu. Porque parece que é “impossível fazer revolução, organizar um exército como fizeram os operários russos ou os trabalhadores cubanos. Não sei se é impossível, mas aos olhos da maioria das pessoas, da juventude, parece inconcebível”.









