Professora, contadora de histórias, atriz e recreadora, que faz a palhaça Laranjinha, a primeira palhaça negra de Imperatriz.
Raízes e infância
“Uma criança estava chorando e eu falei: ‘meu Deus, o que é que esse menino tem?’... eu ouvi a criança dizer: ‘não preto!’. ‘Jesus, a criança tá com medo não é da palhaça, a criança tá com medo é da pessoa preta’”, relata Eronilde dos Santos Cunha, mais conhecida como Eró Cunha, professora, contadora de histórias, atriz e recreadora, que faz a palhaça Laranjinha, a primeira palhaça negra de Imperatriz.
Quando as festas infantis e a palhaçaria em Imperatriz ainda eram marcadas por uma lógica masculina e apresentações circenses tradicionais, Eró ajudou a inaugurar a arte com proposta pedagógica, cuidadosa com a linguagem e centrada nas crianças. Totalmente caracterizada com o rosto pintado de branco e a pele coberta, sua identidade permanecia invisível ao público: “As pessoas achavam que eu era branca, nunca imaginavam que eu era uma pessoa negra”. Com o tempo, a maquiagem pesada foi sendo retirada, o corpo e a identidade da palhaça se revelaram, e o nome Laranjinha, dado pelas próprias crianças, se consolidou.
A família de Eró vem do interior do Maranhão, da cidade de Dom Pedro, vindos da união de uma mulher negra e um homem branco. A família da mãe trabalhava nas terras dos pais do seu pai paterno, seu avô vinha “do tempo da escravidão”. Em busca de melhores condições de vida, a família migrou para Imperatriz quando Eró era bebê, vivendo dificuldades, mas motivados pelo desejo de um futuro melhor para os filhos. A mãe, que nunca pôde estudar, acreditava no poder transformador da educação e queria que seus filhos pudessem ter essa oportunidade.
Eró conta que veio de um lugar que nunca chegou a conhecer, por isso não tem lembranças, pois sua vida inteira foi em Imperatriz, como uma menina alfabetizada aos 07 anos, fruto de pais do interior, lavradores, quebradores de coco, que terminou o ensino médio, fez mestrado e se orgulha de tudo que conquistou, sempre na rede pública.
Uma mulher com muitas experiências que se complementam para formar a pessoa que é hoje: a independência da mãe e da avó criou uma noção matriarcal dentro da Eró, assim como o seu amor pela arte foi alimentado pelo acesso à educação, pontos-chave em sua vida. A jovem que escutava as novelas e programas no rádio, aprendendo a usar a imaginação, e via o pai lavrador atuar como fotógrafo, cultivava o amor pela imagem e imaginário.
O encontro com o teatro
O primeiro contato com o teatro veio de forma inesperada no ensino fundamental, quando estudava no Centro Educa Mais Nascimento de Moraes, que na época usava o nome de Poli Valente (1987). “Chegou um grupo de teatro, umas pessoas diferentes, estranhas, com roupas e cabelos diferentes, falavam diferente. Eu pensei: ‘meu Deus, nunca vi pessoas desse jeito’”, relata a professora. O grupo estava divulgando um espetáculo e a curiosidade virou encantamento. Com um papel que garantia meia-entrada, pediu autorização à mãe e foi ao teatro com uma amiga. “Eu nunca tinha entrado num teatro. O Ferreira Gullar ainda era um galpão, mas tudo foi muito novo, muito encantador. As luzes, os personagens… o que eu conhecia de contar histórias vinha do rádio da minha avó... ’”, conta.
Após essa experiência, ainda no fundamental, decidiu se inscrever em uma oficina de teatro. As aulas aconteciam no Paço da Cultura, atual Academia Imperatrizense de Letras, e a partir dali o teatro passou a fazer parte da sua vida. Integrante do Grupo de Teatro Oásis, um coletivo com trajetória marcante na cidade, participou de diversos espetáculos e festivais, viajando para encontros de poesia, conto, crônica e dramaturgia promovidos por entidades culturais locais. Nesse percurso, fortaleceu laços com professores e estudantes da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), que funcionavam como jurados e incentivadores, abrindo caminhos para a universidade e para o mercado de trabalho. Entre diferentes experiências profissionais, de manicure a professora de natação para bebês, essa rede de amizades, parcerias e apoios foi sendo construída e posteriormente complementada pelo contato com os movimentos sociais. A militante negra, fundadora do movimento negro em Imperatriz, cofundadora e ex-presidenta do Centro de Cultura Negra – Negro Cosme (CCN-NC), professora aposentada, e líder da pastoral da pessoa idosa, Izaura Silva, conta que conheceu Eró no Instituto Federal do Maranhão (IFMA), antigo Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET), onde Eró fazia curso de eletromecânica Izaura narra histórias de uma jovem “muito inteligente, estudiosa”, com uma forte veia artística e que sempre participava de tudo.
Movimento negro e educação
Enquanto professora, Izaura apresentou a Eró e a muitos de seus alunos o movimento negro. Integrando o CCN-NC, Eró participava da elaboração de projetos de teatro, desenho, música e dança, voltados ao antirracismo, como o de Desenho Afro, que comemorou o seu 15° em 2025. Como coordenadora da Coordenação de Educação para a Igualdade Racial de Imperatriz (CEIRI), Eró sistematiza as ações dos movimentos com projetos nas escolas de educação básica mostrando sua atuação como uma liderança dinâmica, simpática, trabalhadora e conciliadora.
“O movimento negro cresceu muito na cidade, graças ao trabalho dela e de todos nós, militantes. A sociedade reconhece o crescimento e a importância desse trabalho”, afirma Izaura, ressaltando que o impacto de Eró é amplificado pela sua influência, contatos na cidade e boa capacidade de falar em público, tornando-a uma figura que serve como fonte de reconhecimento e inspiração para meninas e mulheres negras.
A professora Deivanira Vasconcelos Soares conheceu Eró no processo seletivo para mestrado em 2016 e destaca que o projeto da CEIRI é muito importante porque leva a formação antirracista para os professores da educação básica e professores do estado. Além disso, ela destaca o Festival Afro de Teatro, um festival de teatro que valoriza a cultura negra e que conta histórias por essa perspectiva crítica, social, envolvendo a comunidade escolar. Então, Deivanira explica que, dentro dessa formação antirracista, ela vai promovendo também encontros artísticos e formações artísticas, criando a possibilidade real de trabalho com esses temas nas escolas.
“Uma liderança de Eró como de resistência, não incansável…tudo que ela faz tem esse propósito da educação antirracista e de formar uma sociedade melhor para gênero, classe e raça”, descreve Deivanira sobre Eró. Ela a admira por conseguir envolver muita gente no trabalho e realizar do melhor jeito possível, mesmo muitas vezes sem apoio financeiro da gestão municipal ou estadual.
Para Eró, um dos maiores entraves ao trabalho cultural em Imperatriz é a falta de continuidade das políticas públicas, que mudam a cada gestão municipal. Ainda assim, ela destaca como decisivo o governo do ex-prefeito Jomar Fernandes (2001–2005), especialmente entre 2002 e 2003, quando foi convidada a deixar a sala de aula para atuar na Fundação Cultural. Depois, integrou a coordenação Arte e Cultura nas Escolas (PACE), à frente de uma equipe formada por profissionais da educação, da literatura e das artes. O grupo levava oficinas de teatro, dança, música, artes visuais, artesanato e formação para escolas municipais, sobretudo das periferias.
Os trabalhos desenvolvidos com os estudantes eram transformados em apresentações que saíam do espaço escolar e ocupavam teatros, secretarias e eventos da cidade. “Foi um movimento que transformou vidas”, relata, ao lembrar que ainda encontra pessoas impactadas por aquele projeto. A iniciativa foi encerrada no governo seguinte, evidenciando, segundo ela, o problema de ações que não se consolidam como política de Estado. Apesar de reconhecer que se não fosse a pouca experiência, poderia ter contribuído muito mais nessa função de coordenação do PACE, Eró avalia o período como um dos mais potentes de sua jornada pessoal e coletiva, parte fundamental de sua trajetória na educação pública e da cultura em Imperatriz.
PROCINE e reconhecimento
Entre as ações mais marcantes, se sobressai o Projeto de Cinema Negro (PROCINE) “Curta Imagem Negra”, que constitui uma iniciativa desenvolvida há mais de doze anos, com foco na promoção da educação antirracista por meio da linguagem audiovisual. O projeto contempla estudantes da Educação Básica e a comunidade em geral, propondo reflexões críticas sobre identidade, cultura e representatividade negra.
Ao longo dessa trajetória, o PROCINE alcançou reconhecimento em diferentes espaços. Destaca-se sua apresentação na cidade de Ouro Preto (MG), durante a 20ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CINEOP/2025), integrando a mesa de debate sobre cinema. Além disso, o projeto foi contemplado no edital Sementes da Ancestralidade, da Fundação Cultural Palmares (2025), no qual obteve a segunda colocação, entre mais de duzentos projetos culturais inscritos para apenas duas vagas, evidenciando a relevância e a qualidade da proposta desenvolvida.
Racismo e resistência
Ao refletir sobre sua caminhada como mulher negra e ativista em Imperatriz, Eró relata que o racismo sempre esteve presente de forma explícita e cotidiana, a ponto de muitas vezes gerar dúvida e adoecimento. “É tão banalizado que a gente chega a pensar se não está criando isso na cabeça”, afirma. Para ela, esse apagamento do olhar do outro impõe uma responsabilidade coletiva: criar formas de educar em casa, na rua, na escola e, sobretudo, nos espaços culturais e educativos, que considera “extremamente potentes” para provocar debate e transformação. A experiência, no entanto, revela contradições profundas da cidade e das instituições, já que o preconceito também se manifesta em ambientes acadêmicos, inclusive entre professores.
“É cansativo ouvir todos os dias que nosso corpo é indesejado, que não pertencemos a certos lugares, que nossa capacidade intelectual é questionada”, desabafa. Diante disso, ela defende alianças reais, em que pessoas em posição de privilégio usem seus espaços para enfrentar o racismo estrutural, não falando em nome dos outros, mas ajudando a desconstruir uma lógica violenta que, segundo ela, adoece não só a população negra, mas toda a sociedade imperatrizense.
Ao revisitar a própria jornada, Eró identifica o papel de destaque do matriarcado da força das mulheres em Imperatriz. “É minha avó, é minha mãe, é Izaura, é Maristane, é Herli”, nomeia. Observando o movimento negro e os movimentos sociais da cidade, as lideranças sempre foram majoritariamente femininas. Para ela, são as mulheres que sustentam essas lutas até hoje. Porém, essa resistência histórica feminina revela a preocupante dificuldade de renovação. Reuniões esvaziadas, mobilizações com poucas pessoas e a ausência de jovens dispostos a permanecer nos coletivos revelam um enfraquecimento que, segundo ela, não é casual.
“A gente faz muito, mas não está conseguindo trazer sangue novo”, avalia, apontando fatores como o individualismo, o papel das redes sociais, a precarização da educação pública e a disputa ideológica que começa cedo, “inclusive dentro das escolas e de espaços religiosos”. Enquanto movimentos autoritários conseguem mobilizar juventudes, os movimentos sociais e culturais de Imperatriz lutam para continuar atuando. “Não é que a gente queira estar sempre nos mesmos lugares”, diz. “É que ainda não conseguimos mobilizar muitas pessoas para ocupar, permanecer e dar sequência a essa história que vem sendo construída há décadas.”
Conquistas e desafios
Pensando em conquistas recentes, podem ser destacadas a fundação da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL), em 2016, a eleição da primeira reitora (2021) e a criação da Delegacia Especializada da Mulher (final da década de 1980). Também cita como conquistas o aumento da produção intelectual feminina e da presença feminina na mídia, a Casa da Mulher Maranhense e o trabalho de mulheres defensoras públicas. No campo cultural, lembra o impacto do primeiro livro sobre Imperatriz escrito por uma mulher, lançado em 1972 por Edelvira Marques, que se tornou referência para a memória da cidade e destaca as cantoras, compositoras e artesãs locais, além das inúmeras publicações femininas, inclusive possui textos publicados nos Livros Mural das Minas – antologia Literária Feminina Maranhense, de 2024; na obra 500 anos de luís Vaz de Camões, de 2024 e Literatura afro-brasileira e identidades – cultura e outros saberes, 2025.
Eró comenta que, como fruto das últimas gestões, a cidade viveu um forte sucateamento da cultura, educação, saúde e da cidade como um todo Para Eró, a degradação urbana expressa um processo mais profundo de abandono e injustiça social, que ajudou a fortalecer discursos autoritários. Ainda assim, as conquistas femininas e negras seguem como sinais de resistência e de possibilidade de reconstrução da cidade a partir da memória, da cultura e da luta coletiva.






