Liderança do MST, professora, mãe e militante feminista.
A jovem na estrada
Nos arrendamentos na região de Zé Doca nos anos 90, um grupo de pistoleiros levou um integrante do Movimento Sem Terra (MST) para o espancamento. Na beira da estrada, uma jovem de 19 anos se recusou a ir com eles para a sede da fazenda porque a militância a ensinou a diferença entre a violência com testemunhas e o que pode ocorrer com uma mulher sozinha.
Origens na Paraíba
Essa jovem era Gilvânia Ferreira, mais conhecida como Vânia, liderança do MST, professora, mãe e militante feminista. Nascida no interior da Paraíba, em Lagoa Grande, em 1970. Uma região conhecida pela produção de cana-de-açúcar, o pai era lavrador e trabalhava nas terras de fazendeiros da região e ela descreve a mãe como sua maior inspiração, uma mulher marcada pela violência social do trabalho nos canaviais, na roça, de cuidar da casa, criar 8 filhos e passar por 14 gestações.
“Quando eu escuto alguém falando 'é pobre porque não trabalha'. ‘Ele não tem as coisas porque não trabalha’. Isso me revolta muito. Porque não tinha uma pessoa que trabalhasse mais que meu pai. E que trabalha até hoje, igual minha mãe”, declara Gilvânia, que começa sua história pela sua origem e sua família. Com uma criação humilde, ela começou a estudar aos 7 anos. Com as professoras Cecília e Maura Alexandre, ela aprendeu a ler e encontrou uma paixão pela leitura e pelo aprendizado, levando para a vida e para os seus alunos as palavras da professora Maura: “Você sabe, você consegue”.
Despertar feminista
Participando dos grupos de jovens da igreja, ela conheceu a teologia da libertação e viu o papel das lideranças religiosas na luta do povo e as vidas ceifadas pelo latifúndio. Ela relata que conheceu o feminismo quando houve uma greve das mulheres canavieiras na Paraíba, que pararam em sua comunidade. Curiosa, Gilvania perguntou o porquê de estarem ali e elas explicaram que cortavam cana e ganhavam menos do que os homens, mesmo fazendo a mesma metragem, por isso se mobilizaram para conquistar o direito de receber o mesmo valor. “E eu comecei a perceber que mulheres não têm os mesmos direitos que os homens”, completa.
Com 16 anos, Gilvânia participava das atividades do Sindicato da Lagoa Grande, grupos de jovens e igrejas de base nos finais de semana. A liderança camponesa do PT na época, Maria da Penha, lhe deu um livro, As Mulheres da Nicarágua Estão Todas Despertas, que foi um divisor de águas em sua vida. Sobre o livro, ela conta que “mostrava mulheres nos frontes de batalha, nos processos de libertação, vivendo amores e lidando com vaidade enquanto confrontavam o poder, algumas até com armas nas mãos, outras engenheiras, médicas, arquitetas, professoras, sociólogas. Esse livro me fez refletir e entender que mulheres podem ocupar todos os lugares”.
Entrada no MST
No ensino médio, aos 17 anos, ela conheceu o Movimento Sem Terra, que mudaria a sua vida, participando de campanhas de solidariedade na comunidade, ajudando pessoas doentes, plantando e cuidando da roça. Ela foi chamada para uma oficina do Jornal Sem Terra, porque seu sonho era ser jornalista investigativa, denunciando injustiças. A partir daí, ela começou como correspondente, escrevendo notícias dos conflitos na Paraíba e distribuindo o jornal, mesmo sendo chamada de comunista por falar sobre reforma agrária e luta dos movimentos sociais.
“Eu peguei minha bolsa e disse: mãe, eu vou para a luta do MST”, ela descreve como teve que contrariar a mãe para participar numa luta que era violenta e difícil. Entrando permanentemente no movimento em 1989, Gilvânia se tornou uma liderança, viajou por várias cidades e estados, sempre enfrentando despejos, falta de recursos e pistoleiros. Com apenas 19 anos, participou da fundação do MST em Pernambuco, organizando uma ocupação de 400 famílias. No mesmo período, ela foi para Cuba estudar filosofia, economia política e movimento feminino na Federação das Mulheres Cubanas.
Raízes em Imperatriz
A militante reconta ter estado em praticamente todos os assentamentos do movimento no Maranhão. Ela chegou a cidade de Imperatriz em 1992, onde começou a criar raízes quando engravidou de sua filha em 1995. Nesse período, ela se tornou amiga e companheira de luta de Conceição Amorim, participando da mobilização social que mais tarde culminou na fundação do Centro de Proteção à Cidadania e Defesa dos Direitos Humanos Padre Josimo (CPCDDHPJ).
“Eu via a Vânia grávida, trabalhando nas articulações do que seria hoje o Assentamento Califórnia. Trocando ideias, fazendo reuniões…” relembra José Luís da Silva Costa, conhecido como Zé Luís Costa, jornalista, locutor, morador do assentamento Califórnia e militante filiado ao PT. Ele conta que conheceu Gilvânia por meio das palavras da mãe, que fala com grande admiração da companheira que conheceu na Pastoral da Criança. São 32 anos que ele conhece o MST e a “Vânia do MST”, uma figura que sempre esteve inserida nesse projeto coletivo nas palestras, nas atividades, fazendo na comunidade, nos encontros do MST, sempre marcante pelos discursos gesticulados e cheios de carisma.
O jornalista acredita que, mesmo sendo conhecida no Brasil inteiro pela participação do MST, em Imperatriz, não há como separar a “Vânia” da luta pela terra e da relação com o feminismo e a luta pela liberdade e pela participação da mulher.
Por fim, Luiz ressalta que acha que Gilvânia não é reconhecida o suficiente, tendo vindo para Imperatriz apesar de suas andanças por todo o Brasil e América Latina. Pela sua dedicação no MST, "a casa dela se tornou imperatriz". “Dentro dos movimentos sociais em Imperatriz, ela é totalmente reconhecida, só que o que importa é fora dele, dentro da mídia”, explica. O jornalista lamenta a cidade não ter eleito Gilvânia como vice-prefeita de Imperatriz quando se candidatou nas eleições municipais de 2024.
“A Vânia sempre foi alguém que teve muita coerência política, muito pertencimento à classe trabalhadora, que nunca negociou princípios”, afirma a educadora popular e militante do MST, Maria Divina Lopes, que conheceu Gilvânia na luta por terra e políticas de apoio à reforma agrária em 2001. A militante destaca que Gilvânia se coloca como barreira de resistência nos processos em que trabalhadores e trabalhadoras estão ameaçados de despejo em seus territórios, com disponibilidade de se articular localmente com o aparato político e jurídico do movimento, seja municipal, estadual ou nacional. Sempre exercendo sua liderança e capacidade de ser uma agitadora das ideias da massa.
Olhar sobre a cidade
Sobre a cidade de Imperatriz, Gilvânia declara que “parece que Imperatriz é a segunda maior do Estado, mas não tem estrutura de segunda maior cidade de um Estado". Até o ensino integral é escasso”. Ela também destaca sua preocupação com a questão ambiental da cidade, sem arborização, e a preservação de rios e riachos.
Para Gilvânia, é importante destacar que a rede municipal de combate à violência contra a mulher nem sempre consegue atuar como deveria e falta a qualificação constante dos profissionais, apesar dos esforços da sociedade civil organizada. “E não só vítima de violência, mas a mulher que precisa de determinados atendimentos. Mulher idosa, as mulheres grávidas, as mulheres que precisam de algum tipo de assistência”, ela complementa, porque não basta olhar apenas para a questão da violência, precisa ser feita a quebra de ciclos de abuso, criando formas de independência econômica, fornecendo apoio de psicólogos, assistentes sociais e campanhas para que as mulheres entendam que “cuidado não é violência”. Por fim, ela reafirma a relevância das conquistas na cidade, como foi a Delegacia Especializada da Mulher.
Feminismo e futuro
“Eu escuto muitas mulheres dizendo assim ‘eu não sou feminista’. Mas tudo que tem hoje de conquista das mulheres foi luta das feministas”, reforça a militante, que destaca a luta das mulheres feministas nos séculos XIX e XX, citando lideranças de Imperatriz como 'Maria Querubina entre as Quebradeiras de Coco, Conceição Formiga no Clube de Mães, a professora Regina da UEMASUL, a companheira Lucília que atuava na luta dos bairros, a Chica da Pastoral da Mulher, a Simone e Rebeca da ASSARI, Conceição Amorim e muitas outras'.
Gilvânia defende a luta pela terra, e também a luta das mulheres, “que têm que ocupar as instâncias de decisão de poder, nos movimentos populares e sindicais, ocupar cargos políticos, estar no exército, ser empreendedoras ou donas de casa, ocupando os espaços que quiserem”. Mesmo com os padrões da sociedade, o mundo não é o mesmo que há 10 anos e isso tem forte ligação com a luta das lideranças femininas: “todas nós somos feministas. A gente faz é não reconhecer e não aceitar que tudo que nós vivenciamos hoje é uma condição de liberdade da mulher e de conquista e vitórias das mulheres”.
Dentro da sua atuação, Gilvânia sempre destaca o papel das lideranças e o acolhimento dos outros movimentos sociais. Ela também relembra da ousadia juvenil, da rebeldia que sentiam no início, quando superaram todos os percalços por causa da “certeza de que a gente estava na luta certa, no caminho certo, na causa correta”.






